quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Desabafo


Completamente inútil. Foi assim que me senti no fim da noite de ontem, após um dia desesperadamente longo, onde as horas se arrastaram, me arrastando também ao estado de mais completo tédio.

Quando finalmente cheguei em casa, fui avisada pela minha irmã de que minha mãe havia caído na garagem, sofrendo uma lesão no ombro. Imediatamente, fomos até lá e não encontramos ninguém. Meus pais e minha irmã voltavam do hospital. Minha mãe chegou com uma tipóia no braço e uma caixa de anti-inflamatório na mão.

Ao saber do acidente, ocorrido ainda pela manhã, fiquei atordoada e extremamente magoada com o fato de ninguém ter me avisado antes. Não foi a primeira vez que algo assim aconteceu e a sensação de ser excluída da família é inevitável. Sim, há tempos sinto que minha família evita me contar os acontecimentos.

É difícil compreender os motivos pelos quais eles evitam dar um telefonema informando qualquer coisa que seja. A justificativa é sempre a mesma: você tem os seus problemas, sua família e não queremos dar mais preocupação. Ridículo!! O fato de eu ter esposo e filho não me exime de minhas obrigações como filha e irmã. Querer me poupar das preocupações só me deixa ainda mais preocupada e vai surgindo uma culpa dentro do meu coração difícil de suportar. Culpa por não estar ajudando em nada, por deixar toda a responsabilidade sobre os ombros da minha irmã, por ter uma família estruturada, por conseguir (com muito esforço) manter um padrão melhor de vida, enquanto a família de meu irmão vive passando apertos de toda espécie... Só culpa! Será que ninguém pensa nisso?


Sinto-me traída pela minha própria família. É como se, mantendo-me afastada dos problemas, eles dissessem: “Vai lá, fica no seu mundinho perfeito e nos deixe no olho do furacão.” Sim, é exatamente esse o meu sentimento com as atitudes deles. Sei que não posso resolver todos os problemas, mas gostaria de estar presente nos momentos difíceis. É muito ruim ser sempre a última a saber de tudo.

Voltando à lesão no ombro da minha mãe: o médico que a atendeu suspeita uma "trinca" (será esse o termo?) e solicitou exame de raio X. Se ela tivesse se dirigido a um hospital imediatamente após a queda, talvez o resultado do bendito exame saísse mais rápido. Só que ela esperou meu pai chegar do trabalho e ainda forçou a região lesionada, realizando trabalhos domésticos pesados - terça-feira, religiosamente, mamãe dá uma faxina completa na casa - e isso pode ter agravado ainda mais a lesão. Agora teremos que esperar até a tarde de hoje para ter um diagnóstico mais preciso. E ela deverá permanecer com o braço imobilizado, algo praticamente impossível quando se trata de mamãe.

Fiquei chateada e irritada por dois motivos: primeiro por não saber do fato com antecedência porque eu poderia ter ajudado de alguma forma; segundo, pela teimosia de minha mãe, que menosprezou o problema. Uma queda é sempre uma queda e ela já não tem mais 15 anos de idade. Com quase 60, como ela insiste em ressaltar toda hora, a condição física já não é tão boa assim. Muitas outras coisas piores poderiam ter acontecido e por ela estar sozinha em casa, esperar a chegada do meu pai só pioraria o quadro.

Além disso, a obsessão de mamãe por limpeza é sem limites. O exagero nas faxinas prejudica sua integridade física, visto que ela já possui muitas limitações em função de artrose nas pernas e rompimento de tendões no braço, cuja solução seria uma cirurgia que ela teima em não realizar. Isso acaba com minha paciência, porque mesmo sentindo dores constantes, ela não procura se preservar e realiza demasiado esforço, sem necessidade.

Tenho pensado bastante sobre isso porque, sinceramente, não me preparei para a velhice dos meus pais e fico assustada quando percebo que a cada dia as limitações oriundas da idade começaram a aparecer. Vou precisar trabalhar minha falta de paciência em relação a isso.

Esse desabafo histérico serve para diminuir um pouco meus sentimentos negativos e, como disse minha mãe ontem, “desemburrar”. Apesar de me sentir preterida às vezes, amo demais a minha família, por isso recuso essa distância que eles teimam em colocar entre nós.

Família, vocês não se livrarão da presença desta pessoa que vos escreve!!